Mato Grosso nunca produziu e exportou tanto. No primeiro semestre de 2026, o estado respondeu por 34,6% de toda a soja que o Brasil vendeu ao exterior e registrou o maior abate de bois da história para um semestre. É recorde atrás de recorde.
E todos conquistados apesar do poder público — não graças a ele. Enquanto o produtor bate marca, o Estado não entrega o básico: estrada boa e ferrovia. A conta desse descaso tem endereço certo — o frete, pago por quem planta.
Os recordes que orgulham
Os números do agro mato-grossense impressionam. As exportações de soja somaram cerca de 24 milhões de toneladas no semestre, mais de um terço de tudo que o Brasil embarcou. No boi, foram 3,65 milhões de cabeças abatidas, o maior volume da série histórica, com a receita da carne crescendo quase 64%.
Não à toa, Mato Grosso lidera a balança comercial brasileira, com o maior saldo entre os estados. É o interior sustentando as contas externas do país — um feito que nasce no talento e no risco de quem produz, e não em favor de gabinete.
Estrada esburacada
O problema começa na porteira para fora. Pela Pesquisa CNT de Rodovias 2025, um terço do asfalto avaliado em Mato Grosso está em condição ruim ou péssima, e o estado acumula 95 pontos críticos. As más condições das vias encarecem o transporte em 38,1%.
Na prática, cada buraco vira custo. Nas estradas vicinais — por onde a produção começa a viagem —, os fretes chegaram a subir 60%, segundo a associação de transportadores. É dinheiro que sai do bolso do produtor por uma falha que não é dele.
A ferrovia que não sai do papel
A solução é velha conhecida: trilho. Um trem tira da estrada o equivalente a 422 caminhões e pode cortar custos logísticos em cerca de 40%. Só que a malha ferroviária de Mato Grosso ainda é fraca.
A FICO, principal obra em andamento, está com pouco mais de 22% executada. A Ferrogrão, travada por cinco anos, foi liberada pelo Supremo — mas, no melhor cenário, só deve começar a operar entre 2030 e 2035. Ou seja: o agro que bate recorde hoje vai continuar dependendo do caminhão e do asfalto ruim por, no mínimo, mais alguns anos.
Quem paga a conta
Sem ferrovia e com estrada ruim, o frete come a renda. Levar a soja até o porto de Miritituba, no Pará, custa cerca de R$ 277 por tonelada; pela rota longa até Paranaguá, passa de R$ 446. É um pedágio invisível, cobrado do produtor a cada safra.
O recado é simples. O recorde é mérito de quem trabalha a terra. A conta do atraso é de quem tem o dever de entregar a infraestrutura — e não entrega.
O outro lado
Do lado do poder público, o governo do estado destaca que Mato Grosso tem “a maior obra de ferrovia em andamento do país” e que executa melhorias emergenciais nas rodovias, além de um novo acesso pavimentado a Miritituba previsto para novembro de 2026. Os investimentos existem. A cobrança é pela pressa e pelo tamanho de um gargalo que já custa caro — e há anos.
Os números
- Soja: MT = 34,6% da exportação do Brasil (1º semestre de 2026).
- Boi: 3,65 milhões de cabeças abatidas — recorde histórico.
- Rodovias: um terço do asfalto ruim ou péssimo; +38,1% no custo do transporte (CNT 2025).
- Ferrovia: FICO com ~22% de obra; Ferrogrão só deve operar a partir de 2030.
- Frete: cerca de R$ 277 por tonelada até Miritituba (PA).
Repórter de política e economia da Rede Eixo. Acompanha o poder público e o agronegócio.

