Há uma pergunta que o governo federal vem tendo dificuldade de responder: cadê o gado? Numa onda de operações ambientais pela Amazônia, milhares de cabeças foram apreendidas nos últimos meses. Parte delas morreu, sumiu ou voltou esquelética das mãos de quem o próprio Estado nomeou para guardá-las.
A pergunta já virou caso de Senado. E, atrás dela, aparece uma incoerência maior: boa parte das famílias atingidas foi levada para a floresta pelo próprio Estado, décadas atrás — e hoje é tratada como criminosa.
Uma onda, não um caso isolado
As operações se multiplicaram. Só a Operação Carne Fria, do Ibama, apreendeu mais de 7 mil cabeças em áreas embargadas por desmatamento e aplicou R$ 49 milhões em multas. O ICMBio, na Operação Pasto Nullus, recolheu 436 animais dentro da Estação Ecológica da Terra do Meio, no Pará.
Somam-se a elas a desintrusão da Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, por ordem do STF, e ações em Rondônia e Mato Grosso. Não é episódio isolado: é uma política de fiscalização em larga escala sobre a pecuária na Amazônia.

Frame de vídeo registrado durante as operações na Amazônia. Reprodução/vídeo.
O gado que entra e não sai
O problema está no destino dos animais. Em um caso levado ao Senado, de 337 cabeças apreendidas, mais de uma centena morreu sob a guarda do depositário — o particular nomeado para cuidar do rebanho —, e os sobreviventes voltaram desnutridos por ordem judicial.
O senador Plínio Valério (PSDB-AM) cobra o Ministério do Meio Ambiente: quer saber quantos animais foram apreendidos, mortos, abatidos ou doados, para quais frigoríficos foi a carne e qual o destino do dinheiro arrecadado. Rastreabilidade, aliás, é justamente o que o Estado exige do produtor — e não consegue apresentar sobre o próprio gado que recolhe.
A rastreabilidade que o Estado exige do produtor é a mesma que ele não consegue apresentar sobre o gado que recolhe.
O outro lado responde. Ouvido no Senado, o presidente do ICMBio, Jair Schmitt, afirmou que, feita a apreensão, a guarda dos animais passa ao depositário — ou seja, a responsabilidade por eventuais mortes seria de terceiros. Para os produtores, é o Estado lavando as mãos: apreende, entrega mal e não responde. “Se um pecuarista deixasse a boiada morrer de fome, seria autuado por maus-tratos”, resumem. Sob custódia do poder público, ninguém é responsabilizado.
O Estado que plantou a ocupação
Para entender a revolta, é preciso voltar aos anos 1970. Sob o lema “terra sem homens para homens sem terra”, o governo militar promoveu a colonização da Amazônia: o INCRA distribuiu lotes, abriu a Transamazônica e incentivou milhares de famílias a ocuparem a floresta.
Décadas depois, a regra mudou. Sobre parte dessas áreas foram criadas unidades de conservação e decretados embargos. A mesma terra que o Estado ajudou a ocupar virou área proibida — e quem ficou passou a ser tratado como invasor. A Terra do Meio, por exemplo, é reserva de proteção integral desde 2005: ali, por lei, não pode haver gado.
Há, é verdade, quem se aproveite. O próprio ICMBio aponta indícios de “esquenta de gado” — grandes fazendeiros usando pequenos ocupantes como laranjas para manter rebanho ilegal na reserva. Combater isso é legítimo. A dúvida é se, no fim da conta, quem paga a fatura não é sempre o mais pobre — o que não tem advogado nem lobby.
O “protecionismo” que o Brasil critica lá fora
Há ainda um pano de fundo econômico. O Brasil trava, na Organização Mundial do Comércio, uma queixa contra a lei europeia antidesmatamento (EUDR), que o próprio governo brasileiro — via Ministério da Agricultura e Itamaraty — classifica como “protecionismo disfarçado de meio ambiente”. Estão em jogo cerca de US$ 46 bilhões em exportações à União Europeia.
Para setores do agro, há aí uma contradição gritante. O mesmo país que acusa a Europa de usar o meio ambiente como barreira comercial aplica, dentro de casa, uma cruzada de fiscalização que entrega justamente a rastreabilidade e o “desmatamento zero” que o mercado europeu exige. Nessa leitura, a política ambiental conduzida pelo ministério de Marina Silva faria, na prática, o serviço que interessa ao concorrente estrangeiro — com o pequeno produtor pagando a conta. É uma tese contestada, mas que ganha força a cada boiada que desaparece.
A conta da incoerência
No centro de tudo, uma pergunta que resume a bagunça: como o Estado pode mandar o homem para a floresta, mudar a regra do jogo e depois tratá-lo como ladrão de gado — deixando, ainda por cima, os animais morrerem sob a sua própria guarda?
Enquanto o Ministério do Meio Ambiente não responde onde foi parar o gado, fica no ar a sensação de que boa parte da política ambiental brasileira tem mais de improviso do que de plano. E a conta da incoerência, como quase sempre, sobra para quem tem menos.
A onda em números
- Ibama (Carne Fria): mais de 7 mil cabeças apreendidas e R$ 49 milhões em multas.
- ICMBio (Pasto Nullus, Terra do Meio/PA): 436 cabeças e R$ 6 milhões em multas.
- Um caso no Senado: 337 apreendidas, mais de 100 mortas sob custódia.
- EUDR: cerca de US$ 46 bilhões em exportações do Brasil à União Europeia em jogo.
Repórter de política e economia da Rede Eixo. Acompanha o poder público e o agronegócio.

